Vou a Nova York com bastante frequência e mesmo assim, a pergunta “onde jantar?” continua difícil de responder. A cidade tem opção demais. Em setembro de 2026, numa dessas viagens, fui jantar no Askili Orchard, no West Village.

O Askili serve culinária georgiana com uma leitura contemporânea. Eu já gostava de comida georgiana antes de ir, então a curiosidade era outra: ver o que acontece com pratos tão ligados à tradição quando alguém decide repensá-los para uma mesa de Nova York.

Aqui eu conto o que pedi, o que vale saber sobre a cozinha e os vinhos da Geórgia antes de sentar à mesa e todas as informações práticas para reservar.


O que é o Askili Orchard e quando abriu

O Askili Orchard abriu no fim do verão de 2025. O Eater New York o incluiu entre as inaugurações de agosto daquele ano e, no começo de setembro, o crítico Robert Sietsema já escrevia sobre a casa recém-aberta.

Por trás do projeto está Giorgi Papiashvili. Georgiano, ele vive em Nova York desde 2013 e também é sócio do Sipsteria, um bar de espresso e vinhos naturais com duas unidades em Manhattan. Segundo o próprio restaurante, o Askili é um sonho antigo dele: um lugar onde os sabores do seu país encontrassem o ritmo e o apetite da cidade.

E o nome? Askili é a palavra georgiana para o fruto da roseira-brava, o rosehip em inglês. Ele aparece no cardápio em pontos inesperados, como no suco de askili que vai no coquetel Askili Royale.

O Askili chegou numa cidade que já tem uma cena georgiana considerável: a InsideHook conta cerca de duas dezenas de restaurantes e padarias georgianas em Nova York. Desde a abertura, a casa apareceu na New York Magazine e, em fevereiro de 2026, numa reportagem do Eater NY sobre essa onda de restaurantes georgianos que modernizam a cozinha do país.


Por que vale conhecer a culinária georgiana

Um país entre a Europa e a Ásia

A Geórgia fica no Cáucaso, entre o mar Negro e o mar Cáspio, com Rússia, Turquia, Armênia e Azerbaijão como vizinhos. Durante séculos, o território esteve no caminho de rotas que ligavam a Europa à Ásia, e a cozinha guarda marcas disso, com influências do Oriente Médio e da Europa Oriental transformadas em algo muito próprio. O Askili se apresenta justamente como herdeiro dessas tradições da Rota da Seda.

Nozes, romã, ervas e acidez

Poucos ingredientes dizem tanto sobre a cozinha georgiana quanto as nozes. Elas entram em recheios, pastas e até em molhos inteiros, como o satsivi. A romã aparece por cima de muita coisa e traz doçura e frescor; no pkhali, uma pasta de verduras com nozes, as sementes vermelhas são quase obrigatórias. Completam o quadro as ervas frescas, os queijos, os pães e uma acidez que muitas vezes vem da ameixa azeda, base do molho tkemali.

Um clássico que reúne quase tudo isso é a berinjela recheada com pasta de nozes e romã. Guarde esse prato na memória, porque ele volta mais abaixo.

O supra e a mesa compartilhada

Na Geórgia, ocasiões importantes são marcadas pelo supra, o banquete tradicional conduzido por um tamada, o mestre dos brindes. É mesa longa, conversa e brinde atrás de brinde. A cultura do supra é reconhecida pelo governo georgiano como patrimônio cultural imaterial do país.

O Askili não é um supra, claro. Mas o cardápio é pensado para dividir, com muitas entradas pequenas, pães e pratos que fazem sentido no meio da mesa.


Georgiano contemporâneo: o que isso quer dizer no Askili

“Contemporâneo” virou palavra que serve para quase tudo, então vale explicar o que ela significa aqui.

A proposta do Askili é partir de receitas georgianas e entregar pratos mais leves e frescos, com ingredientes e técnicas que não estariam numa cozinha tradicional. O restaurante diz que faz tudo na casa, dos molhos às conservas, sempre fresco e sem congelados.

Na prática, isso aparece de dois jeitos. Às vezes o sabor clássico fica e a forma muda: a berinjela com nozes e romã vira rolinhos de berinjela japonesa com mousse de nozes e emulsão de romã. Outras vezes, um ingrediente georgiano entra num prato que não é georgiano, como a adjika (pasta picante de pimenta, alho e ervas) num tartare de truta.

Ao mesmo tempo, os clássicos continuam lá: khachapuri adjaruli e imeruli, khinkali, sopa kharcho, chakapuli. Dá para provar a versão tradicional e a reinterpretada na mesma noite, o que é um bom jeito de entender o restaurante.


O que eu pedi no Askili Orchard

Aubergine Roulette: berinjela, nozes e romã

No cardápio, o prato aparece como Aubergine Roullette: rolinhos de berinjela japonesa recheados com mousse de nozes e servidos com emulsão de romã. É a releitura mais direta daquele clássico georgiano que eu citei acima. Os três sabores principais estão ali, mas com outra textura e outra apresentação, o que resume bem a proposta da casa.

Trout Tartare: tartare de truta com picante no final

O tartare de truta leva adjika, abacate, emulsão de laranja, cebolinha, chalota e physalis, e vem com pão crocante. O que se nota é um toque picante que aparece no final.

Swiss Chard Khachapuri: acelga, espinafre e queijo

Khachapuri é o pão recheado de queijo da Geórgia, e para os georgianos ele é bem mais do que um pão: a tradição do khachapuri foi reconhecida em 2019 como patrimônio cultural imaterial do país. Cada região tem sua versão. A mais fotografada é a adjaruli, da região de Adjara, em formato de barco, com queijo derretido e ovo no meio. A imeruli, do oeste, é redonda e recheada com uma mistura de queijos.

Eu pedi a versão com acelga. No cardápio, o Swiss Chard Khachapuri leva folhas de acelga, espinafre e coentro misturados ao queijo, com cebolinha por cima. É uma boa alternativa sem carne.

Para quem não come glúten, o jantar tem a Gluten Free Round Adjaruli Khachapuri, uma versão redonda e sem glúten da adjaruli que, segundo o restaurante, virou uma das favoritas dos clientes.

Chakapuli: cordeiro, vinho branco e estragão

Entre os pratos principais, escolhi o Chakapuli: cordeiro cozido lentamente em vinho branco seco georgiano, com estragão, ervas frescas e ameixa-silvestre azeda, servido com pão georgiano.

É um bom retrato de como a cozinha georgiana trabalha. Ervas em quantidade, acidez da fruta, vinho e cozimento lento, tudo no mesmo prato.

Pavlova com halva de girassol: a estrela da noite

Para fechar, pedi uma Meringue, uma sobremesa no estilo pavlova: merengue crocante e aerado, creme de confeiteiro, frutas vermelhas frescas e por cima, um crumble de halva de girassol. A halva, um doce feito de sementes presente em várias cozinhas da região, entra como o toque final. Super leve e perfeita para encerrar a noite.

Outros pratos do menu que chamam atenção

Não provei estes, mas eles ajudam a entender o cardápio:

  • Khinkali, os dumplings georgianos fechados à mão, em versões de carne bovina e suína, cordeiro com estragão e cogumelos.
  • Shrimp Pistachio Satsivi, camarões numa pasta de pistache, nozes e amêndoas, uma variação do satsivi.
  • Georgian Garden Spreads, pastas de beterraba, espinafre e feijão com romã, servidas com pão georgiano.
  • Beans From Samegrelo, ensopado de feijão com beterraba em conserva, djonjoli e mchadi.

O menu completo está no site oficial.


Coquetéis e vinhos georgianos: provei os dois

Os coquetéis

Fiquei entre os coquetéis e os vinhos georgianos e, no fim, provei os dois. Os drinques do Askili não são um detalhe da refeição; a carta tem identidade própria.

O Coral Mystique leva tequila reposado, geleia de toranja, limão e vinho tinto Saperavi, uma ponte direta com a vinicultura georgiana. O Grapefruit Garden também é uma excelente pedida: combina chá de hibisco, vodka de toranja, geleia de yuzu, limão e folhas de hortelã. Para acompanhar a sobremesa, escolhi o Haku Whisper, com vodka japonesa Haku, xarope de lavanda, St-Germain e limão.

Oito mil anos de vinho

A Geórgia é um dos lugares mais antigos do mundo quando o assunto é vinho. O método tradicional usa o qvevri, um grande recipiente de barro em formato de ovo, geralmente enterrado, onde as uvas fermentam. Há evidências arqueológicas do uso desses recipientes que remontam a cerca de 8 mil anos, e o método tradicional de vinificação em qvevri entrou em 2013 na lista de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO. O país tem mais de 500 uvas nativas.

É dessa tradição que vêm os vinhos âmbar: brancos fermentados com as cascas, que ganham cor alaranjada, mais textura e um pouco de tanino.


Ambiente e localização no West Village

O salão é intimista, com iluminação baixa e um clima agradável para jantar. Funciona bem para um jantar a dois. O restaurante descreve o espaço como uma mistura de estilo industrial com texturas naturais: tijolos aparentes, piso largo de madeira, mesas comunitárias e cantos mais reservados.

O endereço é 401 Sixth Avenue, na região entre o West Village e Greenwich Village. Dá para encaixar o jantar depois de uma tarde andando pelas ruas do bairro.


Informações práticas

  • Endereço: 401 6th Avenue, New York, NY 10014 (mapa)
  • Horário: segunda a quinta, 12h–22h; sexta, 12h–23h; sábado, 11h–23h; domingo, 11h–22h
  • Almoço e brunch: dias de semana, 12h–16h30; fins de semana, 11h–16h30
  • Reservas: Resy ou OpenTable
  • Telefone: +1 (646) 344-1241 · E-mail: info@askiliorchard.com
  • Site e cardápios: askiliorchard.com · jantar · vinhos · coquetéis
  • Restrições alimentares: há opções vegetarianas, veganas e sem glúten, incluindo khachapuri sem glúten
  • Preços de referência (cardápio online, outubro de 2026): khachapuris de US$ 22 a 28, pratos principais de US$ 26 a 49, coquetéis autorais a US$ 21, taças de vinho a partir de cerca de US$ 14. Os valores mudam, então confira antes.

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