Toda vez que vou a Washington DC, tento reservar pelo menos uma noite para um restaurante que valha a viagem. Dessa vez, no início de setembro de 2026, foi o Karravaan, no Union Market. Saí de lá com a sensação de ter comido em diferentes países sem sair da mesa.

Sobre o Karravaan

O Karravaan fica na 325 Morse St NE, no Union Market District. Antes era uma área de galpões e atacadistas de comida; hoje é um dos endereços gastronômicos mais interessantes de Washington. O restaurante abriu em 2025 e em outubro do mesmo ano, entrou para a seleção do Guia Michelin.

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Por trás dele está o chef Sanjay Mandhaiya, que também é dono do Pappe, na 14th Street. O conceito é uma viagem pela Rota da Seda: cada prato puxa de uma região diferente, do Cáucaso ao Norte da África, passando pela Índia e pelo Irã. O próprio chef descreve o projeto como uma forma de trazer de volta comidas antigas dessas rotas, que tinham sido perdidas e agora foram reencontradas.

A ideia de viagem também está no salão. O design se inspira nas ferrovias do sul da Ásia, em parte pela infância do chef perto de uma estação de trem. Tem arcos que lembram pontes ferroviárias, azulejos que remetem a tapetes persas e uma cozinha aberta pensada para parecer um vagão parado. O resultado é um lugar chique, mas despretensioso. O serviço é atencioso, e os pratos vêm em porções generosas, pensados para dividir.


Chef’s Journey: o menu degustação

Pedimos o Chef’s Journey (US$ 80 por pessoa), o menu degustação em que o chef decide o que vai para a mesa. Foram seis pratos:

  1. Khachapuri: receita georgiana com um toque picante, com gema de ovo, queijo de fazenda com pimenta amarela, feta e óleo de chili.
  2. Smoky eggplant dip: inspirado na Pérsia antiga, com berinjela italiana, cebola caramelizada e labneh.
  3. Polvo grelhado: ao estilo grego, com toques do Norte da África: grão-de-bico frito, alho-poró chamuscado, tomate em conserva e chermoula verde.
  4. Repolho roxo chamuscado: fusão africana e asiática, com mel queimado, cebola em soubise, chili crunch e chalota frita.
  5. Branzino na chapa: uma versão americana de um prato tradicional iemenita, com batata amassada e frita, piperade e zhug de cardamomo verde.
  6. Mango chai cheesecake: sobremesa de inspiração indo-chinesa, com marmelada de manga e flor de sal.

O cheesecake foi a surpresa da noite. Parece pesado só de ler o nome, mas chegou leve e equilibrado, com aquele toque de manga que fechou o jantar sem deixar a sensação de estufado.


Os drinks

Comecei com o Dhuaan (US$ 18), que já no nome (“fumaça”, em hindi) avisa que não é um drink qualquer: single malt, rye, tamarindo, fernet e baunilha. Forte, defumado, ótimo para abrir a noite.

Depois pedi o Nana: vodka, arrak, gengibre, lima, hortelã e uma espuma de soda por cima. É mais refrescante e fez um bom contraste com o primeiro.


O momento do vinho

Na hora de escolher o vinho, eu não conseguia decidir entre um palestino e um grego: o Cremisan 2023, do Cremisan Valley (Palestina) e o Mathiulius 2021, da Christos Fonsos Winery, da ilha grega de Tinos. A garçonete resolveu o impasse do jeito certo: trouxe os dois para eu provar antes de escolher. Isso, para mim, já diz muito sobre o nível do serviço do lugar.

Os dois rótulos têm história. A Cremisan fica num vale perto de Belém, na Palestina, e foi fundada por monges salesianos em 1885. Ela é conhecida por trabalhar com uvas nativas da região, como a tinta Baladi e as brancas Hamdani, Jandali e Dabouki. A Christos Fonsos foi a primeira vinícola da ilha de Tinos, fundada em 1997.

Acabei ficando com o grego. Sou suspeito para falar, porque sou apaixonado pelas ilhas gregas, e aquele vinho carregava uma memória afetiva com a qual o palestino, por melhor que fosse, não tinha como competir. Ele me acompanhou até o fim da noite.


A conversa com o chef executivo

No fim da noite, o chef executivo veio até a mesa cumprimentar. Falei para ele exatamente o que senti: que tinha viajado por vários países sem sair de Washington. Fui para a Geórgia com o khachapuri, para a Pérsia com a berinjela, passei pelo Norte da África e pelo Iêmen, terminei na Índia com o cheesecake e voltei para a Grécia na taça. Ele confirmou que é exatamente essa a proposta do Karravaan, e dá para sentir que não é só discurso de marketing: o menu entrega isso de verdade.

Ficamos quase duas horas e meia à mesa, entre pratos, drinks e papo. Foi uma noite gastronômica de verdade, dessas que valem a reserva com antecedência.


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