A Eslovênia faz fronteira com a Áustria, e isso muda tudo para quem mora em Viena como eu. Dá para sair numa sexta de manhã e estar almoçando em Ljubljana antes do meio-dia. Foi exatamente o que fizemos: três noites, quatro dias, de carro, sem pressa.
Essa foi a minha terceira vez na Eslovênia. Nas outras duas eu tinha feito o roteiro clássico, com Bled e a costa em Portorož. Dessa vez a proposta era outra: ver o que quase ninguém vê. Vinícola de família, um vale nos Alpes Julianos, uma cidade que ninguém sabe pronunciar e um jantar dentro de um castelo.
Se você está procurando o que fazer na Eslovênia além de Ljubljana e Bled, esse roteiro é para você. Está tudo aqui: onde comer, quanto custa, o que vale a pena e o que eu faria diferente.
Dia 1 (sexta): Ljubljana e Novo Mesto
Almoço no Open Kitchen
Se você chegar em Ljubljana numa sexta-feira, tem uma coisa que você precisa fazer antes de qualquer outra.
O Open Kitchen, ou Odprta Kuhna em esloveno, é um mercado gastronômico ao ar livre que toma conta de uma das praças do centro histórico. Cozinhas do mundo inteiro montam barraca no mesmo lugar e você anda, olha e escolhe.
O detalhe importante: só acontece às sextas-feiras, de março ao fim de outubro. Fora disso, não existe. Acontece na Pogačarjev trg, ao lado do mercado central, e funciona desde 2013.
Eu comi comida queniana pela primeira vez na vida ali. Arroz de coco com frango em molho de amendoim, nove euros. Meu amigo pediu um bife argentino. Você anda trinta segundos e muda de continente.
Também provei o štruklji, que é o rolinho recheado de nozes e um clássico absoluto da cozinha eslovena. A receita da versão de Ljubljana já estava escrita em 1868, num livro de cozinha chamado Slovenska kuharica.
A atmosfera é o que mais me pegou. Tem música, mesas e cadeiras espalhadas pela praça, e nos dias quentes você encontra mesas debaixo das árvores. Foi exatamente onde eu acabei, porque pegamos uma onda de calor.
Preços: pratos entre 9 e 15 euros. Cerveja local 4,50, IPA 5 euros.
Um passeio pelo centro
Depois do almoço, caminhamos pelo centro histórico. A parada obrigatória é a Prešeren Square, com a estátua de France Prešeren, o poeta nacional esloveno.
Uma curiosidade que quase ninguém repara: a estátua está olhando fixamente para alguma coisa. Se você ficar atrás dele e seguir a direção do olhar, vai encontrar um rosto de mulher esculpido na fachada de uma casa do outro lado da praça. É Julija Primic, o amor impossível dele. A estátua olha para ela desde sempre.
Novo Mesto
De Ljubljana pegamos o carro rumo ao sul, em direção a Novo Mesto. É cerca de uma hora de viagem. É a sétima maior cidade do país, mas parece mais um vilarejo grande.
Fazia uns 40 graus no dia em que fomos. Mesmo assim vale a caminhada pelo centro histórico, que fica numa curva do rio Krka.
A igreja de São Nicolau foi nossa primeira parada, e aqui está o motivo real de vir até aqui: dentro dela, acima do altar, existe uma pintura de Tintoretto. Sim, o veneziano.
A história de como ela foi parar ali é boa. Um incêndio danificou a igreja em 1576, e o homem que financiou a reforma decidiu que o novo altar merecia algo vindo de Veneza. A pintura chegou por volta de 1582 e está lá desde então.
Outra curiosidade sobre o nome: Novo Mesto quer dizer “cidade nova”. Ela foi fundada em 1365 pelo arquiduque Rudolf IV, que batizou o lugar com o próprio nome, Rudolfswerth. Ninguém usou. As pessoas simplesmente chamavam de cidade nova, porque era nova, e o apelido venceu. Já são 660 anos de “cidade nova”.
Dia 1 (fim de tarde): degustação de vinhos na Colnar
De Novo Mesto subimos para as colinas de Trška Gora, e foi ali que aconteceu a melhor parte do dia.
A Vinska klet Colnar é uma vinícola de família na região vinícola de Dolenjska. Os registros da família naquela terra são de 1408. Por quase todo esse tempo eles foram agricultores. Viraram vinicultores oficialmente há cerca de dez anos, e a adega nova, onde acontecem as degustações, foi concluída em 2022.
A degustação custou 20 euros por pessoa, com quatro vinhos mais uma tábua de frios com queijos, presuntos e legumes.
O que provamos:
- Collis 2019, o meu favorito sem sombra de dúvida. É um branco feito com seis castas diferentes misturadas e envelhecido dois anos em barril de acácia.
- Rosé de blaufränkisch
- Um tinto
- Cviček, que é o vinho símbolo dessa região e talvez o mais curioso do país: feito com uvas tintas e brancas juntas. O cviček da Colnar já foi eleito o melhor do ano três vezes, em 2008, 2014 e 2022, e levou bronze no Decanter em 2019.
Depois da degustação demos um passeio a pé pelos vinhedos, literalmente entre as parreiras. É o tipo de coisa que não estava no roteiro e virou uma das melhores lembranças da viagem.
Dica prática: a Eslovênia tem três regiões vinícolas e nove distritos. A Dolenjska é uma delas, e o cviček praticamente não sai daqui. Se você quer provar, precisa vir.
Jantar: Pops Pizza, em Ljubljana
Voltamos para Ljubljana à noite e fomos jantar na Pops Pizza, que muita gente considera uma das melhores pizzas da cidade.
Eu amei. Sentar no centrinho numa noite quente de verão, perto do rio, com o castelo de Ljubljana iluminado lá em cima.
Preços: pizza La Penélope 15 euros, cerveja 6,70, água com gás de meio litro 3,50.
Dia 2 (sábado): Kamniška Bistrica e Kamnik
O vale
No dia seguinte acordamos e pegamos o carro para Kamniška Bistrica, um vale glacial nos Alpes de Kamnik e Savinja, cerca de quarenta minutos de Ljubljana.
Você entra por uma estrada estreita e as montanhas vão se fechando dos dois lados. Caminhamos por umas duas horas. Existem vários trechos de trilha, com dificuldades diferentes, então dá para escolher o seu ritmo.
O rio que corre no fundo do vale nasce ali mesmo, direto da rocha. É por isso que a água é tão limpa que dá para contar as pedras no fundo, e é um dos rios mais limpos do país.
E é gelada. Muito gelada. Eu entrei, e foi a água mais fria em que já entrei na vida. Doía no corpo, literalmente. Meu chute é que estivesse por volta de 6 a 8 graus. Mesmo assim as pessoas estavam se banhando, e vale a experiência nem que seja por cinco segundos.
Uma coisa que eu não esperava encontrar ali: no meio do vale existe um pavilhão de caça construído nos anos trinta para o rei Alexandre I da Iugoslávia. O projeto é de Jože Plečnik, o arquiteto que desenhou boa parte de Ljubljana, trabalhou em Viena e reformou o Castelo de Praga. Três capitais europeias, e depois uma cabana no fim daquela estrada.
Almoço no Alpine Hut
Existe um único restaurante no vale, o Kamniška Bistrica Alpine Hut, e é lá que se almoça.
Pedimos uma salada com queijo grelhado e ovos, que estava deliciosa, e um schnitzel. A cerveja era de uma cervejaria local e valeu muito a pena.
Kamnik no fim da tarde
Na volta para Ljubljana paramos em Kamnik, que fica no caminho e é um vilarejo simpático demais para passar direto.
Tem o Little Castle, dá para caminhar pelo centro sem rumo, e paramos numa cafeteria chamada Slaščičarna Šutna para tomar um café e um sorvete. Passeio despretensioso, que às vezes é exatamente o que se quer.
Dia 2 (noite): jantar no Castelo de Ljubljana
Essa foi a noite mais especial da viagem.
Deixamos o carro na cidade e subimos a pé até o castelo. São uns 10 a 15 minutos de caminhada. Existe funicular para quem preferir, e também dá para subir de carro.
O Castelo de Ljubljana é mencionado pela primeira vez em documento escrito em 1144. Ou seja, quase 900 anos olhando a cidade de cima.
Dentro das muralhas fica o Gostilna na Gradu, que está no Guia Michelin. Foi Bib Gourmand de 2020 a 2024 e recebeu a distinção Michelin Selected em 2025. Está também na lista 50 Best Discovery desde 2022. A cozinha é comandada pelo chef Luka Jezeršek.
A proposta da casa é percorrer as 24 regiões gastronômicas da Eslovênia. Sim, 24, num país que se atravessa de carro em duas horas.
Eles estavam com o menu de verão, que só existe nessa estação:
- 4 tempos: 49 euros
- 5 tempos: 55 euros
- 6 tempos: 64 euros
- Harmonização de vinhos: de 24 a 42 euros, conforme o tamanho do menu
Pedi o de seis tempos. Em vez da harmonização, escolhemos uma garrafa de Chardonnay do Kristančič, por cerca de 40 euros, o que foi um custo-benefício excelente.
O jantar saiu por volta de 100 euros por pessoa, com vinho. E eu paguei do meu bolso: não foi convite nem parceria.![]()
Um detalhe que quase ninguém vê: desça até a parte de baixo do restaurante, onde ficam os banheiros. Ali estão fragmentos originais de pinturas murais da sala de estado do castelo, do período barroco, do fim do século XVII. São patrimônio cultural protegido da Eslovênia e passaram por conservação entre 2009 e 2011.
Depois do jantar descemos caminhando e demos uma volta pelo centro para fazer a digestão. Recomendo.
Bônus: cinema ao ar livre no pátio do castelo
Se você for no verão, tem mais um motivo para subir até lá.
Todo ano o pátio do castelo vira um cinema a céu aberto. O evento se chama Film pod zvezdami, ou Filme sob as Estrelas, e é organizado pelo cinema Kinodvor junto com a prefeitura de Ljubljana. Em 2026 aconteceu de 9 de julho a 1 de agosto, com sessões todos os dias às 21h30. Jantamos lá justamente no último dia do evento e deu para pegar a vibe um pouquinho.
A programação reúne os melhores filmes da temporada e alguns lançamentos que estreiam ali antes de qualquer outro lugar do país. Os filmes passam no idioma original com legendas em inglês.
E aqui está a melhor parte, que quase ninguém sabe: as mesas do pátio do Gostilna na Gradu ficam na borda do mesmo pátio onde a tela é montada. Ou seja, dá para pedir uma mesa lá fora, jantar e assistir ao filme ao mesmo tempo. Nós jantamos na parte de dentro e foi uma excelente pedida. Por conta do filme ao ar livre, as mesas do lado de fora estavam bastante silenciosas.
Dia 3 (domingo): Bohinj
Acordamos cedo e seguimos para o norte.
No caminho passamos por Bled. Não vou cuspir no prato: o lago de Bled é lindo e eu já tinha visitado em 2016. Mas estava absurdamente cheio, e não era essa a proposta da viagem. Paramos só para uma foto e seguimos.
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Quarenta minutos depois de Bled chegamos em Bohinj, cerca de uma hora de Ljubljana no total, e é aí que a Eslovênia mostra o que ela tem de melhor.![]()
O lago Bohinj é o maior da Eslovênia e fica dentro do Parque Nacional Triglav, o único parque nacional do país, nos Alpes Julianos. Não tem catraca, não precisa de barco: você chega e entra na água.
A água estava linda e dava para ver os peixes nadando ao lado. Você pode alugar stand-up paddle, caminhar pela margem ou simplesmente ficar lá curtindo o dia.
Almoço em Srednja vas
A dez minutos do lago fica Srednja vas v Bohinju, um vilarejo de casas de pedra com sacadas de madeira e quase ninguém na rua.
Almoçamos no Gostilna pri Hrvatu, um restaurante de família que está no Gault&Millau Eslovênia.
O que comemos:
- Kranjska klobasa com chucrute, batatas e torresmo. Essa linguiça é a coisa mais protegida da gastronomia eslovena: só treze produtores certificados no país inteiro podem fabricá-la. E ela já foi ao espaço, em 2006, levada por uma astronauta americana de origem eslovena.
- A truta, que é o prato-assinatura da casa, com pele crocante de fubá sobre risoto. Faz jus à fama.
- Cerveja Laško, que é uma das cervejas típicas do país.
- De sobremesa, kremšnita e tiramisù. A kremšnita é aquele quadrado de creme entre duas camadas de massa folhada e é a sobremesa símbolo da Eslovênia. Meu amigo esloveno pedia essa sobremesa quase toda vez que saíamos para comer, e agora eu entendo.
Ainda subimos até a igreja de São Martinho, no alto do vilarejo. Por fora é simples. Por dentro é de outro nível, com afrescos e cores que você não espera num lugar tão pequeno.
Dia 3 (noite) e Dia 4: Kranjska Gora e uma escapada para a Itália
No fim da tarde seguimos para Kranjska Gora, nossa segunda base, onde ficamos uma noite. Poderíamos ter ficado tranquilamente mais tempo.
Kranjska Gora é uma estação de esqui, então no inverno vive de neve. No verão ela vira outra coisa: cachoeiras, rios, trilhas e muito verde. É o pulmão verde da Eslovênia. O centrinho é simpático, com lojinhas e barraquinhas.
O lago Jasna
A grande atração é o lago Jasna, e ele fica a poucos minutos de caminhada do centro. Também tem dois estacionamentos ao lado, para quem preferir ir de carro.
Uma curiosidade: Jasna não é um lago só, e não é natural. São dois lagos artificiais interligados, no encontro dos riachos Velika e Mala Pišnica, somando 2,2 hectares. A água é verde-esmeralda e reflete as montanhas Razor e Prisojnik ao fundo.
O símbolo do lugar é a estátua de bronze de um íbex, sobre uma rocha à beira da água. É o ponto mais fotografado dali.
Outras coisas que quase ninguém conta sobre o Jasna:
- Tem uma torre de observação no segundo lago, para ver tudo de cima.
- Existe um caminho Kneipp por ali, feito de pedras com água gelada da montanha correndo por cima, para massagear os pés depois da caminhada.
- E tem uma biblioteca à beira do lago, que funciona na lógica de doar um livro e levar outro.
Um aviso que eu queria ter recebido
Alugamos um apartmento perfeito. Lindo, impecável. Só tinha um problema: ficava em frente à igreja.
O sino toca a cada quinze minutos. Uma badalada a cada quarto de hora e três a cada hora cheia. A noite inteira, 24 horas por dia.
Eu praticamente não dormi. Se você for para Kranjska Gora, procure hospedagem longe da igreja. Fica o aviso.
Bônus: os lagos de Fusine e Predil, na Itália
De Kranjska Gora, a Itália fica a quinze minutos de carro. Na volta para Viena paramos em Tarvisio e aproveitamos.
Os lagos de Fusine estão entre os mais bonitos do norte da Itália. Eu já tinha ido antes e continuo achando impressionante toda vez. Depois seguimos para o lago de Predil.
Almoçamos em Tarvisio, no restaurante Tschurwald. Pedi uma pizza com prosciutto di Parma e um spritz. Provei também a massa à bolonhesa e um nhoque que estava dos deuses.
Vale a pena ir para a Eslovênia?
Vale, e por um motivo que só fica claro quando você está lá: o país é pequeno e tudo é perto. Você toma café da manhã na capital, almoça nos Alpes, faz uma degustação de vinhos no fim da tarde e ainda janta num castelo. Em quatro dias a gente viu lago glacial, vinhedo, cidade medieval, restaurante no guia Michelin e ainda cruzou a fronteira para a Itália.
E, principalmente: fora de Bled, você quase não encontra outros turistas.
Resumo dos custos
| Item | Preço |
|---|---|
| Prato no Open Kitchen | 9 a 15 euros |
| Cerveja local / IPA | 4,50 / 5 euros |
| Degustação na Colnar (4 vinhos + tábua de frios) | 20 euros |
| Pizza na Pops Pizza | 15 euros |
| Menu degustação no Gostilna na Gradu | 49 a 64 euros |
| Harmonização de vinhos | 24 a 42 euros |
| Jantar completo no castelo, com vinho | cerca de 100 euros por pessoa |
Dicas rápidas para montar o seu roteiro
- Alugue carro. Metade desse roteiro é impossível de fazer sem.
- Tudo é perto. De Ljubljana são cerca de uma hora até Novo Mesto, uma hora até Bohinj e quarenta minutos até Kamniška Bistrica.
- Vá numa sexta se quiser pegar o Open Kitchen em Ljubljana.
- Evite Bled na alta temporada, ou vá bem cedo. Bohinj entrega mais e recebe menos gente.
- Reserve o jantar no castelo com antecedência.
- Em Kranjska Gora, durma longe da igreja.
- Leve toalha. Você vai querer entrar na água em Kamniška Bistrica e em Bohinj, mesmo com frio.
Quatro dias na Eslovênia é pouco. Mas é pouco do jeito bom, daquele que dá vontade de voltar.
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